Potencial Bioativo das Algas Marinhas na Agricultura Brasileira: Mecanismos de Ação e Fronteiras da Inovação

Avanços científicos revelam como extratos de algas atuam na fisiologia vegetal e animal, otimizando a eficiência de insumos agrícolas, mitigando estresses abióticos e abrindo novas frentes de pesquisa para a pecuária sustentável, consolidando o Brasil como um ator relevante neste mercado em ascensão.

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Introdução

O aproveitamento de algas marinhas na agricultura, uma prática secular em nações europeias, atravessa uma profunda transformação no Brasil. Impulsionado pela sinergia entre a academia e o setor privado, o país avança da aplicação empírica para o domínio biotecnológico, explorando o vasto potencial dos compostos bioativos presentes na flora marinha. Para a comunidade de P&D, as algas emergem não apenas como uma alternativa sustentável, mas como uma plataforma tecnológica horizontal, capaz de potencializar a eficácia de fertilizantes e defensivos e de endereçar desafios complexos, como a regeneração de solos e a redução de gases de efeito estufa na pecuária.


Do Uso Tradicional à Validação Científica no Mercado Brasileiro

A utilização de algas na agricultura remonta ao século XIX na Europa, mas foi nos últimos vinte anos que o Brasil iniciou sua jornada nesse setor. Hoje, o país vive uma rápida difusão da tecnologia, impulsionada por pesquisas que validam sua eficácia. Segundo Átila Francisco Mógor, professor da UFPR, estamos “construindo os alicerces para ela chegar com mais força ao agricultor”. Essa percepção é confirmada pelos números da Abisolo, que apontam um faturamento de mais de R$ 5 bilhões para o setor de biodefensivos e biofertilizantes em 2024 — um salto expressivo ante o R$ 1,3 bilhão de 2022. Embora ainda distante dos R$ 52 bilhões do mercado de defensivos químicos, o crescimento anual de 20% demonstra uma inequívoca demanda por inovação e sustentabilidade.


O Mecanismo de Ação: Algas como “Atrizes Coadjuvantes” de Alta Performance

O maior potencial tecnológico dos extratos de algas reside em sua função bioestimulante. Eles atuam como catalisadores de processos fisiológicos, potencializando a ação de fertilizantes e defensivos. Danielle de Bem Luiz, da Embrapa Pesca e Aquicultura, descreve seu papel como o de uma “melhor atriz coadjuvante”, pois os extratos “melhoram a absorção dos nutrientes e ajudam a mitigar estresses ligados ao clima”. A explicação para essa capacidade, segundo Marciel Stadnik, da UFSC, está na própria evolução das algas, que desenvolveram um arsenal de compostos para sobreviver em ambientes marinhos hostis. Esses compostos, quando aplicados na lavoura, induzem uma maior resistência nas plantas, funcionando como um estímulo que as leva a produzir mais, mesmo sob condições adversas.


A Riqueza da Flora Marinha: Das Algas Importadas às Espécies Nativas

A diversidade de matéria-prima é um dos pilares da inovação no setor. Inicialmente dependente da alga marrom Ascophyllum nodosum, importada de águas frias, o mercado brasileiro agora explora ativamente espécies nativas. Algas vermelhas como a Kappaphycus alvarezii e, principalmente, a Lithothamnium, abundante no Nordeste, estão se popularizando.


A Fronteira da Inovação na Pecuária: A Solução para a “Azia dos Bois”

Na nutrição animal, as algas oferecem uma solução de duplo impacto. Além de enriquecerem rações com cálcio e magnésio, certas espécies possuem um efeito terapêutico notável em ruminantes. Adibe Luiz Abdalla, professor do Cena-USP, explica que compostos específicos presentes nessas algas regulam o pH do sistema digestivo, o que eleva a eficiência alimentar e, crucialmente, reduz a emissão de metano. A viabilidade econômica dessa aplicação já foi demonstrada em estudos nos EUA, que apontaram uma redução de 14% na emissão do gás a um custo competitivo de US$ 0,12 por quilo de ração, tornando-a uma ferramenta estratégica para uma pecuária de baixo carbono.


Desafios Regulatórios e a Viabilidade Econômica como Vetor de Crescimento

A expansão da tecnologia não ocorre sem obstáculos. A Instrução Normativa 61, de 2020, que regulamentou os biofertilizantes, é vista como um avanço, mas a exigência de ensaios de bioatividade locais, segundo players do setor, aumenta o custo e o tempo de registro de novos produtos. Por outro lado, a comunidade científica defende a necessidade de um maior volume de dados para garantir a padronização e a eficácia das formulações. No fim, a adoção em larga escala é ditada pelo retorno sobre o investimento. “A agricultura exige que se pague com produtividade”, afirma Wilson Nigri, CEO da Tecnotropic. A crescente receptividade dos produtores indica que essa equação está se provando positiva, consolidando as algas como um investimento viável e lucrativo.


Conclusão

A jornada das algas marinhas na agricultura brasileira evoluiu de uma curiosidade para uma realidade científica e de mercado. Para a comunidade de P&D, o campo é vasto e promissor. Os desafios regulatórios e a necessidade de maior padronização representam oportunidades para pesquisas que aprofundem o conhecimento sobre os compostos bioativos da flora marinha nacional. Ao dominar essa tecnologia, o Brasil não apenas avança em direção a uma agricultura mais resiliente e sustentável, mas também se posiciona como um protagonista na bioeconomia global, transformando sua riqueza marinha em inovação de ponta.

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