Ecossistemas subaquáticos fundamentais para o equilíbrio climático global e a biodiversidade marinha brasileira
As florestas de kelp representam um dos ecossistemas marinhos mais produtivos e biologicamente diversos do planeta, constituindo verdadeiras “florestas subaquáticas” que sustentam uma extraordinária variedade de vida marinha. Essas comunidades submarinas, formadas por grandes algas pardas da ordem Laminariales, cobrem cerca de 25% das zonas de fundos eufóticos das regiões oceânicas costeiras temperadas e subpolares, criando habitats únicos para um amplo conjunto de organismos marinhos.
Definição e Características Fundamentais

As florestas de kelp são ecossistemas marinhos subaquáticos dominados por grandes algas pardas que podem atingir dimensões impressionantes. Em águas portuguesas, existem sete espécies nativas de algas gigantes, incluindo Laminaria hyperborea, Laminaria ochroleuca, Saccorhiza polyschides, Saccharina latissima, Phyllariopsis brevipes e Phyllariopsis purpurascens. Essas algas criam ecossistemas altamente produtivos, ricos e dinâmicos que funcionam como verdadeiros oásis de biodiversidade nos oceanos.
A estrutura física dessas florestas é comparável à das florestas terrestres, com as algas crescendo rapidamente e criando estruturas densas de habitat subaquático. Como as árvores numa floresta, as laminarias crescem altas e proporcionam abrigo a muitas espécies diferentes, desde peixes que procuram refúgio em cardumes ou isoladamente, até ouriços-do-mar que se alimentam delas.
Importância Ecológica e Biodiversidade
Suporte à Vida Marinha
As florestas de kelp são reconhecidas como hotspots de biodiversidade, sustentando uma diversidade de plantas e animais superior à de quase qualquer outro habitat marinho. Essas “florestas” proporcionam um ambiente rico para inúmeras espécies, incluindo muitas espécies de peixes e crustáceos comercialmente relevantes. Os peixes procuram abrigo nas laminarias, os ouriços se alimentam delas, atraindo por sua vez estrelas-do-mar, lontras e outras espécies que se alimentam de ouriços.

A elevada biodiversidade desses ecossistemas e a diversidade de nichos ecológicos por eles criada são uma importante fonte para a compreensão de muitos processos ecológicos globais. Essa biodiversidade ajuda a criar um ecossistema equilibrado e produtivo, onde predadores maiores como focas e leões-marinhos encontram frequentemente abundantes oportunidades alimentares e abrigo seguro para criarem suas crias.
Base da Cadeia Alimentar

As laminarias constituem a base fundamental da cadeia alimentar marinha, fornecendo alimento e habitat para uma variedade extraordinária de espécies marinhas. As algas microscópicas e macroscópicas são produtores primários que convertem luz solar em energia química disponível para outros organismos. Muitas espécies utilizam as algas para reprodução e proteção contra predadores, destacando sua importância na sustentação de ecossistemas saudáveis e equilibrados.
Serviços Ecossistêmicos Cruciais
Sequestro de Carbono
Um dos serviços ecossistêmicos mais importantes das florestas de kelp é sua capacidade excepcional de sequestrar carbono. As laminarias absorvem dióxido de carbono através da fotossíntese, convertendo-o em matéria orgânica que posteriormente desce para o fundo oceânico, removendo efetivamente o carbono da atmosfera e armazenando-o nas profundidades do oceano.
Estudos recentes revelam que as laminarias são aproximadamente 20 vezes mais eficientes que suas contrapartes terrestres na absorção de dióxido de carbono. Esse fenômeno, conhecido como sequestro de carbono azul, posiciona as laminarias como um ator crucial no ciclo global do carbono e demonstra seu potencial para combater as mudanças climáticas numa escala significativa.
As fazendas de algas marinhas podem funcionar como importantes aliadas no armazenamento de carbono, acumulando tanto gás de efeito estufa quanto alguns habitats de “carbono azul”, como os manguezais. Pesquisas internacionais mostram que as fazendas mais antigas conseguem sequestrar até 140 toneladas métricas de carbono por hectare.
Produção de Oxigênio
As florestas de kelp contribuem significativamente para a produção de oxigênio no planeta. Estima-se que mais de 50% do oxigênio global é gerado por organismos como as algas marinhas, principalmente as microscópicas como o fitoplâncton. Durante a fotossíntese, essas algas absorvem nutrientes e dióxido de carbono dissolvido, liberando oxigênio numa quantidade que representa cerca de 50% do oxigênio que respiramos.
Proteção Costeira
As florestas de kelp servem como uma barreira natural contra as ondas, uma função particularmente valiosa durante as tempestades que frequentemente atingem as costas. Essa proteção costeira ajuda a prevenir a erosão e a proteger as comunidades litorâneas dos impactos das ondas e das condições meteorológicas adversas.
Contexto Brasileiro e Internacional
Distribuição Global e Adaptação Regional
No Brasil, embora as condições tropicais não favoreçam naturalmente as espécies típicas de kelp de águas frias, existem oportunidades significativas para o desenvolvimento de cultivos de macroalgas adaptadas às condições locais. A costa brasileira apresenta potencial para o cultivo de espécies de algas pardas que podem desempenhar funções ecológicas similares às das florestas de kelp de regiões temperadas.
Em outras regiões do mundo, como Portugal continental, as laminarias mostram gradientes latitudinais abruptos em suas abundâncias, sendo comuns no norte, existindo em densidades muito baixas no centro e praticamente ausentes no sul. Registros históricos comprovam que existiram outrora extensas florestas de laminarias ao longo das costas rochosas portuguesas.
Desenvolvimento da Aquicultura Nacional
No Brasil, a aquicultura de algas marinhas está em fase de desenvolvimento, com potencial significativo para contribuir tanto para a economia quanto para a sustentabilidade ambiental. Em Santa Catarina, maricultores têm dobrado sua renda com o cultivo de algas para biofertilizante. O trabalho com algas é menos braçal, elas produzem mais rapidamente e a rentabilidade é muito maior comparada com o cultivo tradicional de ostras e mexilhões.
O especialista em aquicultura refere que as algas funcionam como uma esponja absorvendo nutrientes do mar e fazendo a fotossíntese, ajudando no equilíbrio ecológico. Essa característica torna o cultivo de algas uma atividade particularmente adequada para o modelo de economia azul que o Brasil vem desenvolvendo.
Ameaças e Desafios de Conservação
Mudanças Climáticas
As florestas de kelp enfrentam várias ameaças significativas, sendo as mudanças climáticas uma das mais preocupantes. O aumento da temperatura média da água do mar coloca um fator extra de estresse nas florestas de kelp. Dependendo do cenário de emissões de gases de efeito estufa admitido, estima-se que até 2100 se assista a uma redução significativa do nicho térmico das espécies de laminaria, o que conduzirá a uma regressão dos respectivos povoamentos.
Atividades Antropogênicas
As florestas de kelp encontram-se atualmente em fase de declínio preocupante devido a ações antropogênicas diversas. A poluição dos rios, o escoamento costeiro, as práticas de artes de pesca prejudiciais, bem como outros fatores de estresse adicionais contribuem para essa degradação. A pesca de arrasto que destrói o fundo marinho, a poluição química e por plásticos, e o aumento de carbono na atmosfera com a consequente acidificação dos oceanos alteram as condições para as algas se desenvolverem.
Pressão de Herbívoros
Estudos demonstram que a herbivoria intensa pode comprometer seriamente o recrutamento de laminarias. Em regiões mais quentes, os recrutas de laminarias estão majoritariamente limitados a fendas devido à forte pressão de herbivoria em habitats de recife aberto. Essa pressão pode ser um fator determinante na distribuição espacial limitada das laminarias nas regiões mais quentes.
Potencial Econômico e Aplicações Sustentáveis
Aquicultura Sustentável
O cultivo de algas marinhas representa uma alternativa sustentável à expansão agrícola terrestre para atender à crescente necessidade mundial de alimentos e materiais. A expansão do cultivo global de algas marinhas pode ajudar a reduzir a demanda por culturas terrestres e as emissões globais de gases de efeito estufa em até 2,6 bilhões de toneladas de CO2 equivalente por ano.
No contexto brasileiro, essa atividade apresenta potencial significativo para o desenvolvimento de uma economia azul sustentável, aproveitando a extensa costa nacional e as condições favoráveis em diversas regiões para o cultivo de espécies adaptadas ao clima tropical e subtropical.
Biorremediação
As algas marinhas podem ser utilizadas para melhorar a qualidade da água, absorvendo nutrientes em excesso como nitrogênio e fósforo provenientes de atividades humanas. Empresas especializadas conseguem aliar o crescimento econômico à sustentabilidade ambiental, produzindo macroalgas em tanques de aquicultura que simultaneamente filtram as impurezas liberadas pelos peixes.
Diversas Aplicações Industriais
As algas marinhas têm grande potencial comercial e ambiental como alimento nutritivo e base para produtos comerciais, incluindo ração animal, plásticos, fibras, diesel e etanol. Ricas em proteínas, vitaminas e minerais, as microalgas são atraentes para a indústria de alimentos plant-based, já que seu cultivo é mais sustentável que outras alternativas.
No Brasil, setores como o cosmético, farmacêutico e de biofertilizantes podem se beneficiar significativamente do desenvolvimento dessa cadeia produtiva, aproveitando as propriedades únicas das algas marinhas para produtos de alto valor agregado.
Estratégias de Conservação e Restauração
Programas de Monitoramento
Reveste-se de grande importância para a conservação desse habitat sua integração nos programas de monitoramento da biodiversidade marinha. É fundamental ampliar as redes de áreas marinhas protegidas e de sítios de conservação que permitam salvaguardar suas principais ocorrências.
No contexto brasileiro, isso significa desenvolver programas específicos de monitoramento dos ecossistemas de macroalgas existentes e identificar áreas prioritárias para conservação e restauração ao longo da costa nacional.
Reflorestamento Marinho
Tal como se faz reflorestamento das florestas terrestres, também é possível reflorestar as florestas marinhas. Pesquisadores têm trabalhado para aumentar o conhecimento ecológico das florestas marinhas e também para testar, melhorar e implementar soluções para o reflorestamento marinho onde eventualmente seja necessário.
A proteção desses ecossistemas passa inevitavelmente pelo aumento do conhecimento científico e fomento da educação ambiental dedicada às florestas marinhas. O conhecimento científico in situ desses ecossistemas ainda é bastante limitado quando comparado com outras regiões do globo.
Desenvolvimento de Tecnologias Nacionais
O Brasil tem potencial para desenvolver tecnologias próprias de cultivo e manejo sustentável de macroalgas, aproveitando sua expertise em aquicultura e biotecnologia marinha. Investimentos em pesquisa e desenvolvimento podem posicionar o país como referência regional no cultivo sustentável de algas marinhas.
Oportunidades para o Agronegócio Brasileiro
Biofertilizantes e Bioestimulantes
As algas marinhas representam uma oportunidade significativa para o agronegócio brasileiro na produção de biofertilizantes e bioestimulantes naturais. Esses produtos podem contribuir para uma agricultura mais sustentável, reduzindo a dependência de fertilizantes sintéticos e melhorando a saúde do solo.
A composição rica em nutrientes das algas, incluindo nitrogênio, fósforo, potássio e diversos micronutrientes, as torna especialmente adequadas para aplicação agrícola. Além disso, compostos bioativos presentes nas algas podem estimular o crescimento das plantas e aumentar sua resistência a estresses ambientais.
Integração com Sistemas Produtivos Existentes
O cultivo de algas marinhas pode ser integrado aos sistemas de aquicultura já estabelecidos no Brasil, criando sistemas de produção multitrófica que maximizam a eficiência produtiva e minimizam os impactos ambientais. Essa integração pode gerar receitas adicionais para os produtores e contribuir para a sustentabilidade dos sistemas produtivos.
Conclusão
As florestas de kelp representam muito mais do que simples ingredientes gastronômicos ou matérias-primas industriais. São ecossistemas complexos e vitais que sustentam uma biodiversidade extraordinária, prestam serviços ecossistêmicos cruciais para o equilíbrio climático global e oferecem soluções sustentáveis para desafios contemporâneos.
Sua capacidade única de sequestrar carbono, produzir oxigênio e sustentar cadeias alimentares complexas as torna aliadas indispensáveis na luta contra as mudanças climáticas. No entanto, sua vulnerabilidade às pressões antropogênicas e às mudanças climáticas exige uma ação urgente de conservação e restauração.
Para o Brasil, o desenvolvimento sustentável da aquicultura de macroalgas representa uma oportunidade estratégica de posicionamento na economia azul global, aproveitando a extensa costa nacional e as condições favoráveis para o cultivo de espécies adaptadas ao clima tropical e subtropical.
É fundamental reconhecer a magia dessas florestas subaquáticas não apenas por sua beleza natural, mas por sua importância crítica para a saúde dos oceanos e do planeta. Investir em sua proteção, estudo e restauração representa um investimento no futuro sustentável dos ecossistemas marinhos e na resiliência climática global.
Referência: National Geographic Portugal