Brasil na Encruzilhada: Como a Dependência de Fertilizantes Russos Expõe o Agronegócio Nacional a Riscos Geopolíticos Crescentes

O fechamento das fábricas nacionais pela Petrobras e a crescente importação de insumos agrícolas deixam o país vulnerável a sanções americanas e põem em xeque a segurança alimentar brasileira

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O agronegócio brasileiro, responsável por sustentar parcela significativa da economia nacional, encontra-se hoje diante de uma encruzilhada crítica. A crescente dependência de fertilizantes importados da Rússia, intensificada após o fechamento estratégico de fábricas nacionais nos últimos anos, coloca o país em uma posição de extrema vulnerabilidade geopolítica. Com mais de 90% dos fertilizantes sendo importados e a Rússia respondendo por cerca de 31% desse fornecimento, o Brasil pode se tornar o próximo alvo das sanções comerciais americanas, seguindo o exemplo da Índia, que já sofreu retaliações por manter relações comerciais com Moscou.


O Desmonte da Produção Nacional: Uma Decisão Estratégica Questionável

A trajetória que levou o Brasil à atual dependência externa teve início em 2016, quando a Petrobras tomou a decisão controversa de encerrar sua atuação no setor de fertilizantes. Entre 2016 e 2020, três unidades fabris foram fechadas ou arrendadas, marcando o fim de décadas de produção nacional desses insumos estratégicos.

A primeira baixa ocorreu ainda no governo Temer, com o fechamento das fábricas nordestinas. Em março de 2018, encerraram suas atividades as plantas da Bahia (Fafen-BA) e Sergipe (Fafen-SE). Posteriormente, já durante o governo Bolsonaro, foi desativada a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados do Paraná (Fafen-PR), em Araucária, causando a demissão de aproximadamente mil trabalhadores.

O caso mais emblemático foi o da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados (UFN3), em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. Inicialmente vendida ao grupo russo Acron em 2022, a transação foi posteriormente desfeita após o início das sanções à Rússia devido à guerra na Ucrânia. A planta, que havia custado bilhões aos cofres públicos e estava com 80% das obras concluídas, permanece até hoje sem operação.


A Escalada da Dependência Russa: Números Alarmantes

As consequências do desmonte da capacidade produtiva nacional foram imediatas e dramáticas. Enquanto em 2013 o Brasil produzia 9,3 milhões de toneladas de fertilizantes para um consumo de 30 milhões, hoje a produção despencou para 7,7 milhões de toneladas diante de uma demanda que saltou para 45 milhões. Essa lacuna crescente foi preenchida principalmente por importações russas.

Os dados de 2024 revelam a extensão dessa dependência: a Rússia responde por 53% do fosfato monoamônico (MAP), 40% do cloreto de potássio e 20% da ureia consumidos no país. Em valores absolutos, foram importadas quase 6 milhões de toneladas de fertilizantes russos apenas no primeiro semestre de 2025, com projeções de que o ano inteiro pode bater novo recorde histórico.

A Ameaça Crescente das Sanções Americanas

A situação tornou-se ainda mais preocupante após as declarações do presidente americano Donald Trump, que em julho ameaçou aplicar sobretaxas de até 100% sobre produtos de países que comprem insumos russos. A concretização dessas ameaças começou em agosto, quando a Índia foi alvo de tarifas adicionais que elevaram os impostos sobre seus produtos de 25% para 50%.

O consultor Carlos Cogo alerta que essa dependência torna o Brasil “vulnerável” a movimentos semelhantes. A preocupação é fundamentada: o país já enfrenta tarifas de 50% sobre grande parte de seus produtos exportados aos Estados Unidos, empatando com a Índia no topo dos países mais taxados pelo governo americano.

Analistas do mercado financeiro, como os do Itaú BBA, destacam que fertilizantes e combustíveis representam 84% do valor total das importações brasileiras da Rússia, tornando essa relação comercial particularmente sensível às pressões geopolíticas americanas.


As Razões Estruturais da Dependência Brasileira

A dependência de fertilizantes importados não é apenas resultado de decisões políticas recentes, mas reflete também limitações estruturais profundas do país. O Brasil apresenta baixa disponibilidade de matérias-primas essenciais, especialmente potássio e nitrogênio de alta qualidade.

No caso do potássio, elemento onde a dependência atinge 95% das necessidades nacionais, as reservas mundiais estão concentradas em poucos países: Canadá, Rússia e Bielorrússia dominam o mercado global. Já a produção de fertilizantes nitrogenados exige gás natural barato, insumo que no Brasil custa entre US$ 14 e US$ 15 por milhão de BTU, contra uma média internacional de US$ 7.

A geografia e o clima brasileiros também contribuem para essa alta demanda. Os solos tropicais, especialmente os do Cerrado, são naturalmente pobres em nutrientes e sofrem lixiviação intensa devido às chuvas torrenciais. Essa combinação obriga os produtores a aplicarem grandes volumes de fertilizantes para manter a produtividade, tornando o país o quarto maior consumidor mundial desses insumos. noticias.uol+1


O Plano Nacional de Fertilizantes: Uma Resposta Ainda Insuficiente

Diante desse cenário preocupante, o governo brasileiro criou em 2022 o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF 2022-2050), com o objetivo ambicioso de elevar a produção doméstica para 45%-50% da demanda até 2050. O plano prevê investimentos superiores a R$ 25 bilhões até 2030 e estabelece metas escalonadas para reduzir gradualmente a dependência externa. gov+1

A Petrobras, ironicamente a mesma empresa que iniciou o desmonte do setor, anunciou um plano de US$ 900 milhões até 2029 para reativar fábricas na Bahia, Sergipe e Paraná. A previsão é que essas unidades possam suprir cerca de 35% da demanda de ureia até 2028, representando um primeiro passo para reconquistar a autonomia perdida. economia.uol

No entanto, especialistas apontam que essas iniciativas, embora necessárias, podem ser insuficientes diante da urgência da situação geopolítica atual. A execução do plano enfrenta desafios significativos, desde a necessidade de grandes investimentos em infraestrutura até a complexidade da logística nacional.


Alternativas Emergentes: O Potencial Inexplorado das Algas Marinhas

Em meio a esse cenário de dependência externa, emerge uma alternativa promissora e alinhada com os princípios de sustentabilidade: os fertilizantes desenvolvidos à base de algas marinhas. Pesquisas recentes conduzidas pelo Instituto de Pesca, em parceria com importantes universidades brasileiras, demonstraram que biofertilizantes derivados da alga Kappaphycus alvarezii podem proporcionar crescimento mais vigoroso das plantas, com aumentos significativos na altura e peso seco, além de melhorias na qualidade nutricional das culturas.

Estudos realizados no Espírito Santo mostram que extratos de algas não apenas melhoram a produtividade agrícola em até 30%, mas também fortalecem a resistência das plantas contra estresses ambientais. Essas algas, ricas em mais de 70 elementos essenciais e compostos orgânicos únicos como polissacarídeos e aminoácidos, representam uma alternativa nacional aos fertilizantes químicos importados.

A vantagem competitiva das algas marinhas reside em sua capacidade de crescimento acelerado (até 8% ao dia) sem necessidade de insumos externos, aproveitando recursos naturais abundantes no extenso litoral brasileiro. Além disso, pesquisas demonstram que esses biofertilizantes possuem hormônios vegetais naturais que estimulam o desenvolvimento das plantas desde o início do ciclo até a colheita.


Bioinsumos: O Caminho Para a Independência Estratégica

O desenvolvimento de bioinsumos representa outra frente promissora para reduzir a dependência de fertilizantes químicos importados. Estudos do Ministério da Agricultura e Pecuária indicam que a utilização dessa tecnologia pode gerar uma economia de até US$ 5,1 bilhões anuais para o país nas principais culturas de gramíneas, com possibilidade de redução de até 18,5 milhões de toneladas de emissões de CO₂ equivalente.

O mercado brasileiro de bioinsumos já apresenta crescimento médio anual de 30%, com quase metade dos produtores rurais utilizando algum tipo de insumo biológico em mais de 50 milhões de hectares cultivados. A criação do Programa Nacional de Bioinsumos em 2020 e a recente Lei nº 15.070/2024 estabelecem marcos regulatórios que separam esses produtos dos agrotóxicos, garantindo incentivos específicos para pesquisa e desenvolvimento.


O papel das algas marinhas e da Cia das Algas como alternativa sustentável

Em busca de alternativas para reduzir essa dependência estratégica, destaca-se o potencial das algas arribadas e beneficiadas pela Cia das Algas. Essas algas são fonte de biofertilizantes ricos em nutrientes essenciais e compostos orgânicos que estimulam o crescimento das plantas, aumentam a resistência a estresses ambientais e melhoram a qualidade das culturas.

A Cia das Algas vem inovando ao desenvolver produtos à base dessas algas, aproveitando a abundância do litoral brasileiro para produzir bioinsumos que não dependem de matérias-primas fósseis ou importadas. O “cultivo” de algas arribadas cresce rapidamente, é renovável e traz benefícios ambientais, tornando-se uma solução promissora para diversificar o mercado fertilizante, reduzir custos e promover a sustentabilidade agrícola.

Além disso, os biofertilizantes derivados das algas arribadas promovem trabalho digno e renda para comunidades litorâneas que fazem a coleta artesanal dessa biomassa


Investimento no mercado interno e perspectivas

Para enfrentar os desafios dessa dependência, o Brasil conta com o Plano Nacional de Fertilizantes, que visa ampliar a produção doméstica para 45-50% até 2050. Porém, o ritmo dos investimentos precisa acelerar para garantir a autonomia no curto e médio prazo.

A aposta em bioinsumos e fertilizantes à base de algas marinhas, liderada pela Cia das Algas, surge como um caminho inovador para fortalecer o mercado interno, diminuindo vulnerabilidades geopolíticas e adequando o setor às exigências de sustentabilidade e economia circular.

Essa transição não só reduz a dependência externa, mas também agrega valor ao agronegócio brasileiro, promovendo inovação tecnológica, criação de empregos qualificados e posicionamento estratégico no cenário global.

Investir em biofertilizantes de algas marinhas é mais do que uma alternativa: é uma necessidade estratégica para garantir a segurança alimentar, a competitividade e a sustentabilidade do agronegócio brasileiro.


Diversificação de Fornecedores: Um Desafio Logístico Complexo

Paralelamente às soluções nacionais, o Brasil busca diversificar suas fontes de importação. No âmbito diplomático, países como Canadá, Marrocos, Nigéria e nações do Oriente Médio estão sendo prospectados como possíveis novos fornecedores. No entanto, essa transição enfrenta obstáculos significativos.

Carlos Cogo adverte que trocar a Rússia no fornecimento não seria rápido, exigindo reestruturação logística das compras e negociações diplomáticas complexas para fechar novos acordos. Além disso, outros países também buscam reduzir sua exposição à Rússia, criando uma competição global por fornecedores alternativos que pode elevar ainda mais os preços.

A China, segunda maior fornecedora de fertilizantes para o Brasil, oferece principalmente fosfatados e nitrogenados, mas em volumes ainda insuficientes para substituir completamente o suprimento russo. Em 2024, apenas 4% das importações de MAP vieram da China, contra 53% da Rússia.

A Cia das Algas posiciona-se na vanguarda dessa transformação necessária, desenvolvendo soluções inovadoras à base de algas marinhas que podem contribuir significativamente para reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados, oferecendo alternativas sustentáveis e competitivas para o agricultor nacional.

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