Uma Trajetória Inspiradora entre o Mar e a Ciência
Mulher, mãe, esposa e cientista. Essas são as múltiplas facetas da Dra. Giselle Pinto de Faria Lopes, pesquisadora que acaba de conquistar, pela segunda vez, o prestigiado Prêmio “Soberania pela Ciência”, oferecido pela Marinha do Brasil. Em sua mais recente conquista, foi reconhecida pelo artigo “Percepção Pública das Algas Marinhas e suas Aplicações em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação”, um trabalho que evidencia não apenas sua excelência científica, mas também a relevância das pesquisas com organismos marinhos para o desenvolvimento nacional.
Movida pelo desejo de encontrar a cura para o câncer, Giselle escolheu a Biomedicina como profissão ainda em 1999, quando ingressou no Curso de Formação de Pesquisadores da UFRJ. Hoje, como Pesquisadora Titular do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM), ela concilia sua expertise em biologia celular do câncer com o vasto potencial dos produtos naturais marinhos, especialmente das algas, em um trabalho que representa a perfeita intersecção entre ciência, defesa nacional e saúde pública.
O IEAPM, localizado em Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, completa 41 anos de fundação com uma trajetória de excelência em pesquisa oceanográfica e biológica marinha. Desde sua criação, o instituto se destacou como um centro avançado para estudos do ambiente marinho, contribuindo significativamente para o conhecimento e uso eficiente do mar em alinhamento com os interesses estratégicos da Marinha do Brasil.

Da Oncologia às Profundezas do Mar: Uma Transição Natural
Antes de ingressar no IEAPM em 2018, a Dra. Giselle construiu uma sólida carreira de duas décadas no Instituto Nacional de Câncer (INCA), onde se especializou no estudo da biologia das células cancerosas e na resistência à quimioterapia. Sua transição para a pesquisa marinha representou não uma ruptura, mas uma ampliação de horizontes científicos.
“Fui extremamente bem acolhida pela Dra. Eliane Gonzalez, diretora em 2018, e pelo Dr. Ricardo Coutinho, meu chefe imediato e responsável pelo Departamento de Biotecnologia Marinha. Ambos perceberam o potencial biotecnológico que eu poderia desenvolver na Divisão de Bioprodutos, especialmente considerando minha experiência na área da saúde”, relata a cientista.
No IEAPM, a pesquisadora encontrou um campo fértil para desenvolver trabalhos interdisciplinares. O instituto se destaca por oferecer, em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), cursos de mestrado e doutorado em Biotecnologia Marinha, área que estuda as propriedades bioquímicas dos organismos marinhos com objetivo de desenvolver produtos e serviços comerciais, incluindo compostos antivirais e antibióticos.
Projetos Inovadores: Das Algas ao Combate ao Câncer
Atualmente, a Dra. Giselle lidera dois grandes projetos no IEAPM: o “Superalimento”, que utiliza tecnologia de algas e células para suplementação alimentar, e o “Antídoto Natural Marinho”, que investiga estratégias baseadas em fontes naturais marinhas contra diferentes ameaças químicas e biológicas.
“No IEAPM temos que ser multidisciplinares”, explica a pesquisadora. “Mantenho minha linha de pesquisa em produtos naturais anticâncer desde que cheguei, usando modelos pré-clínicos, e devo em breve desenvolver um projeto mais completo de Bioprospecção Oncológica inspirada nos tipos de câncer mais incidentes na família naval.”
O ambiente do instituto favorece esse tipo de pesquisa interdisciplinar. Localizado estrategicamente em Arraial do Cabo, região conhecida pela riqueza de sua biodiversidade marinha, o IEAPM conta com laboratórios de ponta e uma equipe de pesquisadores experientes, muitos dos quais acompanham o instituto desde sua fundação. Este cenário permite que trabalhos como os da Dra. Giselle se desenvolvam com o suporte necessário, combinando a expertise em oncologia com o vasto potencial biotecnológico marinho.
Reconhecimento e Persistência na Carreira Científica
Conquistar duas vezes o Prêmio “Soberania pela Ciência” é um marco significativo na carreira de qualquer pesquisador, especialmente em um país onde fazer ciência ainda representa um desafio diário. A mais recente premiação, recebida na presença da Ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, representa para Giselle a confirmação de que está no caminho certo.
“Não pesquiso vislumbrando tal reconhecimento, mas quando acontece, não tenho como não ficar extremamente agradecida, são momentos marcantes que só a Marinha promove”, afirma. “Eu, por exemplo, entrei na faculdade querendo ‘curar o câncer’. Percebi ao longo desses 25 anos que não é uma tarefa fácil, mas o estímulo e a certa ‘ingenuidade’ ou ‘ousadia’ dessa intenção persiste.”
A trajetória da pesquisadora ilustra bem os desafios enfrentados por cientistas brasileiros. “Sempre digo aos meus alunos que ser cientista no Brasil é para quem realmente ama o que faz, porque não é fácil. Há momentos em que repensamos a carreira”, revela. “O Brasil está cheio de doutores muito qualificados, mas o mercado não consegue absorver todo mundo. Fiz mais de vinte concursos públicos, lutando por uma única vaga para chegar em meu cargo atual.”
Mulheres na Ciência: Quebrando Barreiras nos Oceanos
Questionada sobre o papel da mulher na ciência, especialmente em áreas estratégicas como as pesquisas oceânicas, a Dra. Giselle é otimista: “A participação das mulheres tem sido cada vez mais destacada nas pesquisas em todas as áreas. Há cada vez mais oportunidades de financiamento para projetos voltados ao empoderamento feminino, com abordagens multidisciplinares.”
Sua presença em um instituto militarizado como o IEAPM demonstra como as barreiras de gênero vêm sendo gradualmente superadas em ambientes tradicionalmente masculinos. A cientista reconhece a influência positiva de diferentes mentores em sua trajetória: “Meus pais foram minha inspiração inicial. Minha mãe era uma professora muito criativa, e meu pai é um engenheiro muito curioso. E não posso esquecer do meu marido, co-autor do estudo, pois diariamente ele me ensina a cultura militar e discute comigo as possibilidades de pesquisas na área da Defesa.”
O Futuro das Pesquisas e o Potencial do Mar Brasileiro
Olhando para o futuro, a Dra. Giselle planeja fortalecer suas linhas de pesquisa atuais e iniciar novos projetos. “Os projetos atuais que lidero são temas de linhas de pesquisa extensas que estão resultando em diferentes desdobramentos. Pretendo consolidar ainda este ano um projeto de bioprospecção oncológica e fortalecer o conhecimento nesta área de câncer, tema essencial para a família naval e a sociedade.”
O potencial do ambiente marinho brasileiro para descobertas biotecnológicas é imenso. O país possui uma das maiores costas litorâneas do mundo, com uma biodiversidade extremamente rica e ainda pouco explorada do ponto de vista científico. Instituições como o IEAPM desempenham papel fundamental nessa fronteira do conhecimento, e pesquisadores como a Dra. Giselle representam a vanguarda desta exploração científica.
A Mensagem para as Futuras Gerações
Para aqueles que sonham em seguir seus passos na ciência marinha, a pesquisadora deixa uma mensagem inspiradora: “Que continuemos resilientes e curiosos, pois a solução está no mar.” Esta frase sintetiza não apenas sua visão sobre o potencial da biodiversidade marinha para solucionar problemas como o câncer, mas também a atitude necessária para fazer ciência de qualidade no Brasil.
O trabalho da Dra. Giselle com algas marinhas abre portas para inúmeras aplicações, desde a indústria farmacêutica até a alimentícia e cosmética. Suas pesquisas representam apenas a ponta do iceberg do que pode ser descoberto nas águas brasileiras, reforçando a importância de investimentos contínuos em pesquisa e desenvolvimento na área de biotecnologia marinha.
Soberania pela Ciência: Um Compromisso Nacional
O reconhecimento dado pela Marinha do Brasil através do Prêmio “Soberania pela Ciência” demonstra a importância estratégica das pesquisas desenvolvidas no IEAPM. Em um mundo onde o conhecimento científico é cada vez mais um fator de poder e independência nacional, o trabalho de pesquisadores como a Dra. Giselle transcende o laboratório e se torna parte da segurança e soberania nacional.
O Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira continua, após mais de quatro décadas, a cumprir sua missão de realizar atividades de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação no ambiente marinho. Como demonstrou a própria história do instituto, que em 2014 conquistou sua primeira patente internacional com uma pesquisa inovadora para utilização de tintas marítimas anti-incrustantes, o conhecimento gerado dentro de suas instalações tem potencial para transformar não apenas a ciência brasileira, mas também gerar produtos e soluções de impacto global.
Conheça mais sobre o potencial das algas marinhas brasileiras e como a pesquisa científica nacional está transformando esses recursos naturais em soluções para a saúde, alimentação e indústria. Acompanhe os trabalhos da Cia das Algas e descubra como podemos juntos explorar de forma sustentável as riquezas do mar brasileiro.